Estava chovendo, não havia o que fazer, ele apenas procurou algum lugar seguro pra se proteger. A cidade era fria como o fio de uma navalha. Eram mais de quatro da manhã, não havia portas abertas em lugar nenhum. Caminhou sozinho pelas ruas até encontrar uma praça. Estava deserta, os integrantes da vida noturna nesse momento estavam em suas tocas refugiados do frio e da umidade que tiravam o calor até das almas daqueles que ousassem caminhar pelas ruas naquele momento.
Ele estava só, sem amigos, sem família, atormentado pelos seus medos infantis. Olhou procurando algum abrigo. Havia apenas um coreto no centro da praça, onde em algum momento, algum dia quem sabe, alguma criança brincou de bola, ou quem sabe alguma banda tocou, ou até mesmo um casal trocou juras de amor. E todas essas imagens passaram diante de seus olhos como se fosse um estalo. Pareciam imagens de um tempo perdido, de séculos ou milênios atrás, quando havia um sol dourado e calor no mundo. Nesse momento ele via apenas sombras de um mundo cinza.
Sentou-se em um canto do coreto, tentando se proteger do vento, esperando que a chuva passasse, que o sol surgisse no leste. Mas não havia sol, apenas uma chuva eterna. Remoeu todas as lembranças que possuía naqueles minutos sentado e tremendo de frio. Após um tempo, colocou a mão no casaco e tirou sua carteira. Dentro dela não havia nada além de alguns trocados, seus documentos pessoais e uma foto.
Pegou a foto como se fosse a coisa mais valiosa naquele momento. Nela, cinco jovens sorriam em um dia ensolarado, parados naquele mesmo coreto. Ele não conteve mais as lágrimas. Levantou-se, saiu do coreto, andando como se não houvesse mais chuva ou vento. Sussurrou um Obrigado, e entrou nas trevas da cidade novamente, deixando a foto no coreto, como alguém que deixava flores em um túmulo.